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FALA DIRETOR com Leandro Ribeiro



Nesta semana a EntreAtos traz o diretor Leandro Ribeiro para falar sobre o espetáculo PROJETO SECRETO - A GAIOLA DAS LOUCAS, em cartaz nos dias 18 de Janeiro no Teatro do Sesc em Canoas e nos dias 25, 26 e 27 no Teatro do Sesc em Porto Alegre. Confere o que falou o diretor sobre a peça.

FALA DIRETOR:

Falar do espetáculo Projeto Secreto: A Gaiola das Loucas é, de alguma forma, falar do meu processo de amadurecimento enquanto diretor. É falar das escolhas que se faz na vida, das estradas que se decide percorrer. Tenho paixão pela comédia popular. Acredito que, enquanto gênero teatral (acabo de criá-lo, tendo em vista que se falarmos puramente em Comédia, temos que nos remeter aos gregos), ela possui uma ligação intrínseca com o espectador, pois traz à cena a possibilidade de rirmos de nós mesmos e de percebermos, de maneira leve, como levamos a vida à sério demais. Viver é muito fácil, já dizia alguém que não tenho a mínima ideia de quem seja. Nós (humanos) é que tornamos a caminhada complicada, cheia de atropelos, egoísmos, hipocrisias etc. Fazer comédia pode parecer fácil. Mas não é. Ela é complexa, cheia de maneirismos. Exige um olhar atento do dramaturgo para alimentar esse texto em constante desenvolvimento; do diretor em perceber o que de fato funciona junto ao seu público e do ator, em trazer para a cena um leque amplo de cacos, fruto de sua percepção em deixar o espetáculo atualizado quase que diariamente, tendo em vista o repertório oferecido pelas mais variadas fontes. De forma geral, é como andar numa corda bamba: é tênue o limite entre fazer bem feito e apelar para a piada barata. A sutileza, nesse caso, pode ser fundamental e ter um efeito cômico dos mais interessantes.

Ao longo da graduação (sou cria do DAD-UFRGS, onde me formei em 2013), a paixão pela comédia andou meio adormecida. Surgiram interesses outros e a fase de experimentações por outras vertentes permitiram a mim ter acesso a dramaturgos como Plínio Marcos (maravilhoso), Nelson Rodrigues, dentre tantos outros. Sou fascinado pela abordagem dramatúrgica de Plínio Marcos, observador atento daquilo que está à margem da sociedade dita “tradicional”. O “à margem” em Nelson está mais direcionado para as idiossincrasias das relações familiares, sobre o que condenamos nos outros, numa visão hipócrita do indivíduo em seu seio familiar. Gosto dos autores nacionais, valorizo-os. Principalmente os gaúchos. É fundamental manter viva a memória dos que já se foram (Vera Karan, Ivo Bender, Caio Fernando Abreu, Carlos Carvalho) e levar aos palcos os que ainda persistem (Júlio Zanotta, por exemplo).


A ideia de adaptar a peça francesa La Cage aux Folles, de Jean Poiret, surgiu tão logo ingressei no Departamento de Arte Dramática da UFRGS, nos idos de 2008. O que sempre chamara a atenção, enquanto estudante de teatro e ainda hoje, é o caráter contemporâneo do texto, ainda mais no momento em que vivemos, de constante enfrentamento, por parte de uma parcela da sociedade, nas questões que se referem às tratativas de gênero, de direitos humanos, de respeito à diversidade etc. Mas o texto de Poiret vai além: é um painel amplo acerca das manifestações políticas e sociais ocorridas não só na França, mas ao redor do mundo ao longo da década de 1970. É isso que me deixa apaixonado pela comédia. O poder de tocar em feridas e questões pertinentes utlizando-se do véu da comicidade, da falta de “compromisso” e abusar do risível para falar daquilo que realmente interessa. Na comédia, sinto que o espectador vai desarmado (no sentido bom), pois ali ele quer encontrar uma válvula de escape para os seus problemas cotidianos. E é nessa entrega, enquanto ele ri de si mesmo tendo a impressão de que ri dos outros, que o jogo cênico é realizado. Todos os absurdos da contemporaneidade estão ali aos seus olhos. Disfarçado de entretenimento, a reflexão e a abertura do pensamento vai ocorrendo aos poucos, numa engrenagem que se faz necessária.


O trabalho de construção da peça (que teve início somente em 2015) foi exaustivo. Foram oito meses entre pesquisas, leituras, montagem da base do texto, oficina de preparação de atores para a construção das drag queens, exercícios de dublagem, coreografias, construção das cenas. O texto, construído grande parte ao longo da gestação da peça, assim como várias dublagens, são considerados móveis, ou seja, mudam à medida que o país muda. Torna-se mais ferino, mais ácido. Afinal, repertório é o que não falta, como dito anteriormente. Basta assistir ao noticiário, ler os jornais do dia. Sempre atual, assistir o nosso Gaiola é sempre ver uma peça diferente. Nesses quase quatro anos de trajetória, uma sessão nunca é igual a outra, as piadas de um dia podem mudar na sessão seguinte, a dublagem de ontem pode ganhar outros ares hoje e assim caminhamos, nesses tempos que, cada vez mais, precisamos nos reafirmar enquanto artistas, comediantes.

Teatro, como tudo nessa vida, não se faz sozinho. Nesse finalzinho de texto, é imprescindível agradecer a todos os artistas que se juntaram a nós na construção desse espetáculo. A contribuição de cada um tornou possível sermos o que somos hoje: irmãos de uns, muito amigos de outros. Meus mais sinceros agradecimentos a Douglas Carvalho, Marcello Crawshaw, Davi Borba, Márcia Metz, Boni Rangel, Cristiano Godinho, Juliano Passini, Gabriel Ditelles, Alexsander Madeira, Everton Barreto, Fabrízio Rodrigues, Cau Guebo, Casemiro Azevedo, Carlos Azevedo, Fernanda Majorczyk, Renata Crawshaw, Sara Sirianni, Luis Carlos Pretto, Luana Zinn, Rodrigo Santanna, Tom Peres, Ismael Goulart, Manu Goulart, Matheus Rauber, Samuel Guterres, Jurgen Freitas, Lucas Carvalho. Se esqueci de alguém, me chamem no privado.

Fotos: Cau Guebo.



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