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FALA DIRETORA COM MIRAH LALINE


Chegou o 3º FALA DIRETORA! Dessa vez com a diretora Mirah Laline do espetáculo Pátria Estrangeira/Fremde Heimat.

Mirah contou sobre o processo de montagem, curiosidades, entrega dos atores, autores e todos que estiveram envolvidos na peça e muito mais. Segue abaixo o que falou a diretora:

O Projeto "Pátria Estrangeira / Fremde Heimat" é um espetáculo que estreou em 2018, mas que existe desde 2015, ano em que recebi um convite da Marina Ludemann, diretora do Instituto Goethe, para dirigir o espetáculo. Ela tinha conversado com Jürgen Berger que é o autor que escreveu junto com os atores o texto e que teve a ideia de fazer esse projeto.


O Jürgen é crítico de teatro muito reconhecido na Alemanha e ele já viajou várias vezes para Porto Alegre para desenvolver o projeto AGORA Crítica Teatral que é do Goethe com o Renato Mendonça e a Michele Rolim. Foi Jürgen quem propôs e criou essa plataforma com eles, e foi entre essas viagens que ele fez a Porto Alegre que eu tive a oportunidade de conhecê-lo em um workshop. Ele também viajou pelo interior e ficou muito curioso e muito movido com essa coisa da imigração alemã e como ela é vista no Rio Grande do Sul, que é uma perspectiva completamente diferente da Alemanha. Existe um grande desconhecimento na Alemanha sobre isso. É uma parte da história muito esquecida.

Também, em 2015, o grande tema aqui no cenário teatral da Alemanha, nos jornais e em tudo foi a questão da vinda dos sírios para cá, surgindo toda uma discussão e debates acerca da imigração. Então para Jürgen, naquele momento, seria muito interessante criar um espetáculo que falasse sobre esses imigrantes alemães. O alemão nesse papel de imigrante, de refugiado, dessa pessoa que está tendo que abandonar o seu lar em função da guerra, da fome, em busca de melhores oportunidades de vida para, assim, criar uma nova vida, para ter mais possibilidades para o futuro que é o que acontece com muitas famílias que vêm para cá agora, ou do norte da África, ou que têm crise financeira, que estão em guerras, do Oriente Médio. Então, tem uma semelhança nessas histórias e aqui com o crescimento do racismo, crescimento do neonazismo, da xenofobia seria muito interessante ter essa perspectiva.


Eu achei interessante a proposta e acabou coincidindo que em 2015 eu também recebi uma bolsa para estudar aqui na Alemanha e pude ter alguns encontros com o Jürgen para conversarmos sobre o projeto. Quando conclui a minha bolsa e deveria voltar para o Brasil eu acabei engravidando. Meu marido é sírio e acabei me confrontando mais ainda nesse ano. Eu acho que no Brasil a gente fica muito distante de tudo o que acontece no mundo. O Brasil é tão grande, tem tantos problemas e questões próprias que às vezes fica muito distante, inclusive a mídia e discussões sobre o que está acontecendo no mundo. Por exemplo, quando eu cheguei aqui eu sabia da guerra na Síria, mas eu não sabia tanto. Aqui eu acabei me confrontando realmente com conflitos globais.

Com a minha gravidez e o meu casamento tivemos que adiar o projeto em 1 ano e, por isso, acabamos estreando em 2018, o que foi ótimo porque nós tivemos tempo nesse período para escrever em um dos maiores financiamentos da Alemanha, o Kulturstiftung des Bundes.

O nosso processo foi dividido em duas etapas. Antes da primeira etapa acontecer, teve uma viagem do Jürgen para o Brasil em que ele conheceu o elenco que eu tinha sugerido e fez as primeiras entrevistas para coletar as histórias e começarmos a discutir o que seria a dramaturgia do espetáculo. Depois teve uma segunda viagem comigo em que a gente realmente sentou com o elenco de novo, entrevistou, e a ideia seria partir desse material, dessas entrevistas.


O Jürgen começou a escrever e durante o ano fomos discutindo sobre o que ele estava escrevendo, sobre as figuras e o espetáculo como um todo e aí veio a primeira fase concreta de ensaio do espetáculo, a qual chamamos de workshop de experimentação. Nessa fase testamos alguns textos, pensamos em como seria mais ou menos a linguagem do espetáculo, foi também quando vimos a relação com o vídeo, como funcionaria, e como lidaríamos com esse teatro documental. Foram duas semanas em que a gente se reuniu todos os dias para todos se conhecerem. Então, o Thomas Prenn foi para o Brasil e o Jan Linders, que é o dramaturgo e coordenador do projeto representando o Staatstheater Karlsruhe, também participou de uma semana do workshop, de onde surgiu muita coisa, mais ou menos um direcionamento para onde a gente queria ir.

Teve um intervalo de tempo de 3, 4 meses em que o Jürgen teve para escrever o bruto do que seria o texto da peça. A priori a gente pensa: “nossa, quanto tempo para escrever, quanto tempo para desenvolver esse texto, essa dramaturgia...”, mas a gente foi surpreendido durante o processo com lacunas que existiam em relação à biografia. O texto escrito por uma outra pessoa que não tinha a profundidade do que é a vida daquelas pessoas e o quanto que cada uma delas ainda tinha para dizer sobre suas figuras, suas histórias de família. Dessa forma, acabamos reiniciando o processo várias vezes.

O prazo para criarmos o espetáculo era de 6 semanas e, ao invés da gente começar criando as cenas tivemos que ficar trabalhando texto, improvisando cenas para refazer o texto. Houve muitas versões do texto da peça. Essas versões foram se modificando e foi aí que ficou evidente que os atores tinham que escrever também, que era impossível o Jürgen sozinho escrever todo texto da peça, que tem um lugar de fala, tem as experiências, tem a linguagem de cada um, tem tanta coisa que enriquece através dessa escrita dos atores em conjunto com ele. E mais, o Jan, o dramaturgo, apresentava os questionamentos dele também e ficamos muito tempo refazendo e repensando o texto, na mensagem que estava passando, o que estávamos discutindo, porque eram muitas temáticas para abraçar em um único espetáculo, pois cada um trazia um tema e precisávamos pensar como discutir esses temas sem ser superficial demais, sem ser leviano, respeitando as histórias das famílias, o que acabou por se tornar um processo muito desgastante.


Para o elenco foi muito difícil isso de ainda não ter o texto pronto para decorar, porque a gente havia definido que como a peça teria duas estreias, uma no Brasil e outra na Alemanha, a gente faria “metade/metade”, uma peça falada metade em português e metade em alemão. O Thomas, que participou do processo, ele falava italiano e alemão austríaco, devido à região em que nasceu, que não é Áustria nem Itália e apesar de ter o idioma alemão não é Alemanha também. Ele não falava português. Essa dificuldade do idioma fez com que o processo inteiro de ensaios fosse feito em português, alemão e inglês. Meu inglês é horrível - estamos trabalhando nisso -, mas mesmo assim eu tive que dirigir alguns momentos em inglês, porque acabava sendo o idioma de mais fácil compreensão. A Camila e a Martina tiveram oportunidade de estudar um pouco de alemão que elas ainda não tinham base. O Philippsen e a Karin já falavam alemão, o que facilitava para eles. Enfim, foi um processo em que a gente acabou tendo muitas coisas para resolver e muitas coisas que precisavam de tempo para serem digeridas, tempo para descobrirmos as coisas.


Então, tinha essa questão do idioma, tinha a questão do texto sendo criado durante o processo de ensaio, tinha a questão da pressão do tempo que a gente tinha só aquelas 6 semanas e nada mais que isso e a questão de que estávamos estreando uma peça para dois países com dois contextos completamente diferentes com a temática da imigração alemã no Brasil, a qual aborda um outro olhar sobre o tema. A gente sabe dos alemães que vivem no Brasil, sabemos dos privilégios dessas regiões, como o Sul e Sudeste, principalmente o Sul é uma região que tem muitos privilégios, tem um poder econômico comparado ao norte e nordeste, por exemplo; que tem a ver com a questão do racismo e como o ele é institucionalizado no Brasil. Estamos falando ali das pessoas com privilégios. E tá, como é que a gente vai trazer isso para a realidade? É aí que entra a questão da Camila e como esses alemães que vieram naquela época se relacionaram com os afro-brasileiros que já estavam vivendo aqui, ou então como a história do Philippsen com a questão dos indígenas que já estavam aqui e os alemães vieram com essa ideia de colonizar a terra, sendo assim, uma questão colonial na perspectiva brasileira. Enquanto que na Alemanha vem aquele olhar do alemão imigrante, o que é algo estranho para eles, é distante demais, é algo que não se discute tanto. Por esses motivos, conseguir abraçar essas duas perspectivas em uma montagem foi muito difícil para mim.

Esse foi um processo muito exaustivo porque a gente tinha 8 horas de ensaio por dia, até passamos disso várias vezes. Foi uma surpresa o espetáculo, foi uma surpresa a estreia no Brasil. Eu tive concretamente uma semana para dirigir o espetáculo cenicamente. Quando eu disse ok, agora o texto vai ser isso e é isso, somente a partir daí começamos a ensaiar e os atores puderam começar a decorar de verdade os textos e trabalhá-los. Então foi tudo não só às pressas, mas a gente já estava num cansaço, numa exaustão que já não se sabia mais o que a gente tinha de material e para onde estávamos indo.


Fizemos um ensaio aberto, que foi maravilhoso, com amigos e colegas de trabalho que deram feedbacks superlegais que ajudaram a gente a retrabalhar o espetáculo nos dois ensaios que ainda restavam para a estreia. Conseguimos também, durante a temporada no Brasil, cada dia ir modificando um pouco mais e quando veio para a Alemanha também fizemos modificações até o momento em que para mim, na estreia na Alemanha, foi quando eu senti que agora sim, a peça nasceu. Conseguimos! Ela está passando uma mensagem e o público está interagindo, está saindo do teatro com algo, está saindo com esse encontro, com esses atores, com essas histórias e com todas as problemáticas que a peça lança para o público. Então eu voltei para casa com uma sensação de conseguimos, com todos os desafios que a gente passou, com todo esse estresse emocional e físico para criar um espetáculo que une dois universos completamente diferentes, dois jeitos de fazer teatro completamente diferentes. Por fim, a gente conseguiu.

Como todo processo, acaba sendo sempre um pouco doloroso, alguns processos mais que outros, mas é um aprendizado único. Acho que depois dessa experiência eu me sinto muito mais habilitada para outros processos de teatro documental, para outros processos de coprodução internacional. Enfim, a gente aprendeu muito um com o outro.



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