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BERNARDA, ATUAL EM PRETO E BRANCO – Nora Prado


O espetáculo Bernarda dirigido por Graça Nunes com o Grupo MERÁKI é pura sofisticação e apuro estético a serviço da bela obra de Garcia Lorca. Ambientado num espaço mítico em branco e preto, com a forte presença cenográfica de Elcio Rossini, cujos vestidos negros pendurados em cabides se derramam sobre o chão do palco branco, realçam a condição feminina levada a extremos de confinamento e opressão. Bernarda, a matriarca da família, conduz a vida das cinco filhas com mão de ferro, assim como a mãe senil, que vive trancafiada no quarto, e também as empregadas a quem maltrata com sua crueldade e arrogância. Não há espaço para o prazer nem a imaginação. Tudo é austero e seco, como galhos retorcidos e castigados pelo calor e a secura do ambiente. O ar quente do verão é denso como os vestidos pretos e o luto fechado naquela casa. Bernarda acaba de enviuvar do seu segundo marido e, em meio ao funeral sua filha mais velha, Angústias, passa a ser cortejada por Pepe Romano, um dos homens mais cobiçados do pequeno povoado Andaluz. Num ambiente de economia agrária, parado no tempo, uma Espanha de rígidos costumes se revela através da sua herança machista, repressiva e autoritária. A narrativa se constrói a partir do questionamento e quebra dos tabus. A repressão sexual com que são criadas essas mulheres reflete os valores de uma sociedade arcaica onde os códigos de honra são seguidos ao pé da letra. Virgindade, obediência cega aos pais e ao marido são deveres ensinados e transmitidos no seio da família. Casamentos por interesses e uma vida doméstica previsível e monótona tende a reproduzir os estereótipos aprendidos neste círculo vicioso. Nesta redoma de vidro, asfixiante, com muitas regras e proibições as tensões entre as irmãs começa a crescer.

Pepe Romano está comprometido, oficialmente, com Angústias, mas se enamora de Adela e com ela se deita escondido no curral. Martírio sente ciúmes da irmã mais moça, única a desafiar os limites, impostos pela mãe e a tradição, para conhecer o prazer do amor carnal. Aos poucos a intriga e a fofoca chegam aos ouvidos de Beranarda que resolve agir e interferir com as próprias mãos. A tragédia anunciada se converte na morte de Adela e na solidão a que todas estão destinadas naquela casa maldita.

As intervenções dançadas e cantadas com o talento de Angela Spiazzi e Gabrielle Fleck servem para reforçar os sentidos do texto e decantar os desejos reprimidos de cada uma das dez personagens. A utilização dos leques, adereços típicos da cultura espanhola, atinge grande efeito visual e simbólico, bem como, o interior dos vestidos, que funcionam como quarto, útero, e condensam o que é segredo e permanece oculto. Os tacos de bilhar também são muito bem aproveitados como adereço masculino e com todas as metáforas de poder, controle, opressão e agressividade. Parabéns também a Carlota Albuquerque que assina a direção coreográfica em profunda sintonia com a direção de Graça Nunes. Os figurinos de Daniel Lion, dialogam perfeitamente com a proposta cênica dando unidade ao conjunto.

Alguns cubos vazados, por onde as atrizes se deslocam, são suficientes para sugerirem o espaço da casa e conferir dinamismo as sequências bem arquitetadas e aproveitadas pelo grupo coeso. A iluminação de João Fraga, completamente ajustada à proposta seca e densa do espetáculo, atua de forma a verticalizar o sentimento de ambiguidade vivido pelas personagens. A música de Madona atualiza o mito da obediência feminina e se harmoniza com outros ritmos e vinhetas musicais propostas por Alexandre Azevedo.

Bernarda é um convite à reflexão sobre o universo feminino com suas dores, suas mazelas e de como o machismo ainda está impregnado em nossa sociedade atual, infelizmente. Que o digam as estatísticas de violência e maus tratos domésticos contra as mulheres, bem como os abusos e estupros que acontecem em nosso país. Em face da onda conservadora e altamente retrógada em relação a pauta feminina e dos direitos civis, que graça no Brasil e no mundo, A Casa de Bernarda Alba de Federico Garcia Lorca continua atual por sua mensagem de questionamento, tolerância e liberdade. Fatores essenciais para que uma sociedade tenha saúde e igualdade de direitos e oportunidades. Bernarda, nessa livre adaptação com auxílio luxuoso da inserção de trechos de The Serpent de Jean-Claude Van Itallie é uma bela oportunidade de conhecer um clássico espanhol numa proposta forte e inovadora. Graça Nunes, mostra competência para arregimentar talentos diversos a serviço de ideia comum. Seu profundo entendimento do tema e do autor a autorizam a avançar nessa interpretação plena de encantamento e dor.



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