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Chapeuzinho Vermelho



Chapeuzinho Vermelho é certamente uma das fábulas infantis mais populares da literatura mundial e da literatura francesa, cuja versão original foi recolhida por Charles Perrault por volta de 1697. Desde então, este clássico infantil, já ganhou inúmeras releituras: desde Braguinha, que traduziu e adaptou a história para a célebre Coleção Disquinho, na década de cinquenta, passando por Chico Buarque que a recontou como Chapeuzinho Amarelo, em 1979, até a concepção antológica de Antunes Filho para o teatro adulto em A Nova Velha História.

Como toda a mitologia que se preza, Chapeuzinho Vermelho, continua a despertar o interesse por todo o mundo. Fonte simbólica inesgotável, ainda é capaz de entusiasmar escritores e encenadores que encontram nela material consistente para recontar essa joia narrativa.

É o caso de Chapeuzinho Vermelho, do dramaturgo francês Joël Pommerat que atualiza a narrativa do clássico universal. Traduzida por Giovana Soar e encenada por Camila Bauer, esta versão mais sóbria e densa, potencializa a dimensão sensorial e profunda da história. Um casamento feliz entre texto e encenação que traduz em liberdade poética e força dramática para encantar crianças e adultos. Desde a ambientação sonora, de Álvaro Ros Acosta, recebendo a plateia com o barulho da chuva, com ventania, raios e trovões, instaurando suspense na introdução da história até os objetos cênicos jogados de forma lúdica pelos atores. A iluminação precisa de Thais Andrade pontua adequadamente a concepção proposta, que valoriza o temor ao desconhecido e a jornada corajosa de Chapeuzinho pela floresta, passando pelo encontro com o Lobo e os desdobramentos posteriores.

O narrador, muito bem interpretado por Guilherme Ferrêra, nos apresenta a relação da menina com a sua mãe, numa versão modernizada onde o conflito doméstico se acentua pela falta de tempo da mãe para se relacionar e brincar com a filha. Solidão, incomunicabilidade, desamparo e frustração aparecem nos corpos das personagens. A direção coreográfica de Carlota Albuquerque realça em gesto e dança os recursos expressivos dos intérpretes. Fabiane Severo, como mãe, e Laura Hickmann, como Chapeuzinho Vermelho, desenvolvem diálogos corporais saborosos como na sequência em que se procuram atrás da porta até fundirem-se numa só pessoa. A cenografia, econômica e precisa, de Élcio Rossini, e os figurinos e adereços de Daniel Lion, contribuem para a integração estética das linguagens. Teatro de objetos, teatro de sombras, e máscaras se cruzam numa narrativa simples e sofisticada. Momentos mágicos como o da mãe abrindo a massa com o rolo de madeira e a menina tentando fazer o bolo, ou o momento com o violino e os sapatos da mãe, são divertidos e surpreendentes. O pudim vermelho e a borboleta luminosa dão encanto e leveza para uma atmosfera mais densa e sombria. A figura do lobo, num realismo mais radical, causa estranhamento e medo. Henrique Gonçalves interpreta o vilão da história com propriedade, apuro técnico corporal e vocal, intensificando suas qualidades sombrias e perversas. A opção pelo blackout, nos momentos mais dramáticos, deixa que a nossa imaginação concretize a crueldade do lobo. A preparação vocal de Luciana Kiefer é precisa e segura, transparece na cadência misteriosa do narrador, no vigor da mãe, na fragilidade da vovó, no cinismo do lobo e na inocência da menina. Esta desenvolve muito bem o seu papel de Chapeuzinho, mas poderia estar mais a vontade com o texto, aproveitando melhor as intenções dos diálogos e aprimorando suas nuances e coloridos de modo tão expressivo quanto faz com o seu corpo. Acredito que o tempo trará esse refinamento para todo o conjunto, muito bem dirigido por Camila Bauer. Uma delicada, síntese de beleza, inventividade e mistério, que tornam este espetáculo numa das melhores estreias do ano. Prova que teatro infantil de qualidade pode ser feito com elegância, competência e sensibilidade. Os pequenos passaram por estados de suspensão, medo, encantamento e alívio. Os adultos embarcaram na viagem, tão entregues quanto as crianças. Teatro para Toda a Família é uma realidade em Porto Alegre. Parabéns a equipe afinada e bem treinada que faz da ida ao teatro uma experiência incomum e gratificante

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